Atlântida Editora

Salman Rushdie - Faca

A Literatura Como Sobrevivência

Há quem escreva livros a partir da imaginação e há quem os escreva a partir da memória. E há ainda aqueles, raríssimos, que parecem escrever contra a própria morte. Faca, título português de Knife: Meditations After an Attempted Murder, o mais recente livro de Salman Rushdie, pertence a essa categoria austera e desconfortável: a literatura como sobrevivência. Publicado em 2024, o livro é simultaneamente testemunho, ajuste de contas e reflexão sobre a violência, a liberdade e o poder da palavra. Não é apenas um livro sobre um atentado. É um livro sobre o que acontece a um homem quando uma ideia antiga regressa, décadas depois, para o matar.

A 12 de Agosto de 2022, Rushdie preparava-se para subir ao palco da Chautauqua Institution, no estado de Nova Iorque, para participar numa conversa sobre a protecção de escritores ameaçados. A ironia macabra do cenário é quase excessiva para a ficção. Antes de conseguir pronunciar uma palavra, um jovem vestido de negro correu na sua direcção e esfaqueou-o repetidamente. O ataque durou apenas alguns segundos, mas deixou sequelas permanentes: Rushdie perdeu a visão de um olho, sofreu danos graves numa mão e esteve perto da morte. O agressor tornou-se a encarnação tardia da fatwa emitida em 1989 pelo aiatola Khomeini após a publicação de Os Versículos Satânicos.

É impossível ler Faca sem regressar a essa história anterior. Em 1988, Os Versículos Satânicos desencadearam uma tempestade política e religiosa à escala global. Para muitos muçulmanos, o romance era blasfemo; para o regime iraniano, era uma oportunidade de afirmação ideológica. A sentença de morte decretada por Khomeini transformou Rushdie num símbolo involuntário da liberdade de expressão. Durante anos viveu escondido, sob protecção policial, mudando constantemente de residência. A sua vida tornou-se uma espécie de exílio dentro do Ocidente democrático. O escritor chegou mesmo a adoptar o pseudónimo “Joseph Anton”, junção dos nomes de Joseph Conrad e Anton Tchékhov, tema que exploraria mais tarde num livro autobiográfico. Mas o tempo, esse grande anestesista histórico, foi diluindo a percepção do perigo. O próprio Rushdie começou a acreditar que a ameaça pertencia ao passado.

É precisamente essa ilusão de normalidade que Faca desmonta. O livro começa de forma seca, quase clínica: “Às dez e quarenta e cinco da manhã do dia 12 de Agosto de 2022, fui atacado e quase morto por um jovem com uma faca.” A frase tem a simplicidade brutal dos factos irrecusáveis. Não há ornamentação literária, nem qualquer tentativa de dramatização. Rushdie percebe que a realidade, por vezes, dispensa metáforas.

Contudo, seria um erro pensar que Faca é apenas um relato cronológico do atentado e da recuperação física. O livro move-se noutra direcção: a tentativa de compreender o absurdo. Rushdie procura responder à pergunta mais antiga de todas as vítimas — “porquê eu?” — sabendo, ao mesmo tempo, que talvez não exista resposta satisfatória. O agressor tinha pouco mais de vinte anos, nascera muito depois da publicação de Os Versículos Satânicos e, segundo vários relatos, quase não conhecia a obra do escritor. A violência surge, assim, desligada da leitura e alimentada por ecos ideológicos, vídeos online, slogans herdados e ódios reciclados. Há qualquer coisa de profundamente contemporâneo nesta figura do fanático que age sem conhecer verdadeiramente aquilo que odeia.

Rushdie opta por nunca nomear directamente o atacante, referindo-se a ele apenas como “o A.”. É uma escolha literária e moral. Retirar-lhe o nome é recusar-lhe protagonismo. O livro insiste antes na experiência da vítima, na fragilidade do corpo e na estranha banalidade da sobrevivência. Uma das passagens mais impressionantes descreve o momento em que Rushdie percebe que talvez vá morrer. Não há revelações místicas nem transcendência espiritual; apenas uma aceitação física, quase burocrática, da possibilidade do fim. O escritor rejeita qualquer romantização da proximidade da morte. A experiência, escreve ele, foi “intensamente física”.

Mas Faca não é um livro desesperado. Pelo contrário: talvez o seu aspecto mais surpreendente seja a insistência no amor, na amizade e até no humor. O livro presta homenagem à mulher de Rushdie, Rachel Eliza Griffiths, cuja presença atravessa toda a narrativa como uma força estabilizadora. Há páginas comoventes sobre os dias no hospital, os tratamentos, as cicatrizes e a lenta reconstrução do corpo. Rushdie descreve tubos, pontos, dores e medicamentos com uma minúcia quase cruel, mas intercala esses episódios com observações irónicas e comentários auto-depreciativos. Em vez de adoptar a pose do mártir heroico, prefere frequentemente o registo da vulnerabilidade.

Essa recusa da solenidade absoluta talvez seja uma das maiores virtudes do livro. Rushdie continua a escrever como romancista, mesmo quando fala da própria mutilação. Há digressões, associações inesperadas, referências literárias e momentos de humor negro. Em certos instantes, Faca aproxima-se quase de um diálogo imaginário entre o escritor e o seu agressor, tentativa arriscada de confrontar o ódio através da linguagem. Alguns leitores poderão considerar essas passagens artificiais; outros verão nelas precisamente o gesto essencial do livro: transformar a violência em narrativa, devolver à arte aquilo que a violência tentou destruir.

Naturalmente, o livro reacendeu também o debate em torno da liberdade de expressão. Rushdie tornou-se, desde os anos 80, uma espécie de símbolo ambulante desse princípio liberal. No entanto, Faca evita a retórica simplista. O autor sabe que o mundo mudou. O fundamentalismo religioso já não é a única ameaça à liberdade intelectual; existem hoje novas formas de intimidação, censura e polarização cultural. O caso Rushdie funciona quase como um espelho antecipado do nosso tempo: uma época em que ideias podem gerar violência real, e em que a circulação instantânea de indignação produz frequentemente julgamentos sem leitura, condenações sem contexto e ódios sem experiência directa.

Ao mesmo tempo, o livro possui uma dimensão profundamente íntima. Rushdie escreve sobre envelhecer, sobre o corpo que falha, sobre o medo e a dependência física. O homem que durante décadas viveu perseguido descobre agora uma fragilidade nova: a da carne ferida. Há uma melancolia subterrânea em todo o texto, como se o escritor compreendesse que a sobrevivência também tem um custo psicológico. Sobreviver implica recordar continuamente.

Talvez por isso Faca seja um livro menos político do que existencial. O centro da narrativa não é a fatwa, nem o Islão político, nem sequer o atentado em si. O centro é a pergunta: como continuar depois da violência? Como regressar à linguagem depois de o corpo ter sido transformado em alvo? Rushdie responde da única maneira que conhece: escrevendo. O livro torna-se assim uma afirmação radical da literatura enquanto acto de resistência. Não resistência abstracta ou ideológica, mas resistência concreta, corporal, humana.

Há qualquer coisa de admirável no facto de Rushdie ter escolhido responder ao ataque não com silêncio, nem com ressentimento absoluto, mas com um livro. Um livro imperfeito, por vezes excessivamente auto-consciente, ocasionalmente repetitivo, mas profundamente vivo. E talvez seja precisamente essa imperfeição que lhe dá autenticidade. Faca não procura construir uma estátua moral do autor. Mostra antes um homem ferido, assustado, irónico e obstinadamente ligado à ideia de que as palavras continuam a importar.

Num tempo saturado de opiniões instantâneas e indignações automáticas, a existência de um livro como este tem um significado particular. Rushdie lembra-nos que a literatura continua a ser um espaço de complexidade, ambiguidade e memória. O fanático reduz o mundo a uma única verdade; o escritor multiplica perspectivas. O fanático usa a faca; o escritor usa frases.

E talvez seja essa a verdadeira história por detrás de Faca: não apenas a história de um atentado, mas a persistência quase teimosa da literatura perante a barbárie.

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